Ex-vendedor de uma loja de tecidos, estudante de ciências na Royal College of Science, aluno de Thomas Huxley – um ferrenho apoiador da teoria evolucionista, conhecido como o “bulldog de Darwin” – Herbert George Wells (ou H. G. Wells) é, sem sombra de dúvidas, um dos maiores escritores de ficção científica desde o boom do gênero literário no século XIX, ao lado de Mary Shelley e Júlio Verne, acarretado obviamente pelo desenvolvimento tecnológico ofertado pela primeira Revolução Industrial e também pela ainda recente Revolução Científica, que possibilitaria a Wells as mais verossímeis descrições sobre o funcionamento do cosmos, sem contar os estudos de Charles Darwin acerca da evolução das espécies. Muito mais que um escritor, H. G. Wells também passaria a ser chamado de “profeta” ao inserir em suas narrativas armamentos e juízos muito semelhantes aos adotados durante as duas grandes guerras mundiais.
Até hoje, suas histórias continuam sendo adaptadas com destaque, como nos filmes A Máquina do Tempo (2002), dirigido por Simon Wells, e Guerra dos Mundos (2005), sob a direção de ninguém menos que Steven Spielberg – esta última agora disponível como o mais novo audiolivro da Tocalivros!
É evidente que um dos motivos de uma obra ser considerada clássica é sua atemporalidade, o que, de fato, se trata de uma característica marcante dos livros de Wells ao abordar temas tão universais. A representação do comportamento humano frente à sua inerente voracidade de dominação sobre a natureza e sobre o outro, aquele considerado mais fraco – ideal bastante darwiniano, diga-se de passagem – aqui é subvertida e posta em questão: o ser humano agora está prestes a ser dominado pelo mais forte e pelo desconhecido, quais serão suas reações? A Guerra dos Mundos não é só uma grande crítica ao comportamento dos indivíduos, bastante alienados, mas também às instituições e à ordem pré-estabelecida daquela sociedade; à igreja, ao exército e à hierarquia social alimentada pelo capitalismo. Não à toa, o escritor fazia parte da Sociedade Fabiana, organização britânica pautada nos princípios da social-democracia, e nunca isentou suas obras da crítica social, influenciando inclusive a Declaração dos Direitos Humanos da ONU.
O audioleitor pode esperar de tudo nesse grande clássico: suspense, destruição, vida marciana inteligente com tentáculos pegajosos e armas de energia nuclear, e até mesmo uma pitada de romance entre o narrador e sua amada esposa. De escrita simples, mas excepcionalmente detalhista, somos levados a acompanhar o ponto de vista desse narrador não nomeado do início ao fim da história, que em meio ao caos e aos seus próprios impulsos de sobrevivência no antes pacato interior da Inglaterra, busca manter sua racionalidade. Além disso, ele compartilha o relato de seu irmão mais novo, que vive na movimentada Londres e é testemunha do processo de evacuação em massa do centro da cidade…