O verbo que escapa e Felca

O verbo que escapa e Felca

“Amar, verbo intransitivo. Intransitivo! Não pede objeto. Completa-se em si mesmo.”

Mário de Andrade escolheu esse título, “Amar, verbo intransitivo”, em 1927 como quem lança uma pedra no lago da tradição. Cada palavra abre círculos concêntricos: amar não como contrato, não como pacto social, não como posse de um objeto amado, mas como estado de ser, força que se basta. O romance que nasce desse título, porém, é paradoxo. Um industrial alemão em São Paulo contrata a governanta Fräulein Elza para iniciar seu filho Carlos na vida amorosa e sexual. A família, zelosa da honra, decide que o amor pode ser administrado, terceirizado, ensinado como disciplina escolar.

A cena, aos olhos de hoje, é ferida aberta. O que o romance mostra como dado social — a iniciação precoce, o gesto dos pais que decretam o fim da infância — nós agora reconhecemos como violência. A poesia de Mário, no entanto, não deixa que seja só ferida; envolve o episódio num tecido de lirismo, como se a música de suas frases quisesse nos distrair, ou talvez nos convidar a ler nas entrelinhas. A beleza, nesse caso, não é inocente: pode ser véu, pode ser anestesia, pode ser máscara.

É aqui que o romance revela sua força filosófica. Amar, sendo verbo intransitivo, deveria ser liberdade, respiração do ser, entrega sem destino. Mas no enredo, amar se torna exercício imposto, treinamento, violação disfarçada de pedagogia. A contradição é cruel: a linguagem anuncia liberdade, o enredo mostra aprisionamento. É como se Mário quisesse nos dizer que a sociedade burguesa da época não sabe amar, apenas administrar.

“O amor é uma descoberta de si mesmo no outro.” Mas como se descobre a si mesmo quando o outro é contratado, quando o encontro é arranjado, quando o tempo da infância é interrompido por decreto paterno?

Essa pergunta ecoa quase um século depois. Porque se naquela São Paulo dos anos 20 a burguesia importava da Alemanha uma governanta para gerir o limiar da adolescência, hoje importamos do mercado global narrativas, imagens e algoritmos que aceleram o tempo, empurram a criança para fora da infância antes da hora, transformando em espetáculo o que deveria permanecer segredo. A infância continua sendo campo de batalha: território disciplinar que alguém decide invadir, onde a criança quase nunca detém a palavra. No romance, são os pais; no presente, são as redes sociais, o público invisível, a audiência que observa, comenta, incentiva.

Séculos depois de São Paulo, nos pixels que cintilam em nossas telas, o youtuber Felca produz um vídeo de várias horas expondo o absurdo da sexualização infantil. Não se trata apenas de denunciar um humorista ou um episódio polêmico; trata-se de escancarar a repetição histórica de uma ferida que Mário já mostrava. O vídeo revela como o tempo da infância ainda é invadido e apropriado pelo olhar adulto, transformado em espetáculo. Ainda buscamos desculpas, ainda douramos a pílula, ainda rimos daquilo que deveria permanecer silêncio. No romance, dizia-se: “é para o bem dele”; no presente, diz-se: “é só brincadeira”, “é meme”, “é entretenimento”. Mas sob essas máscaras, o gesto é o mesmo: a tomada do tempo infantil, o roubo da inocência como se fosse mercadoria descartável. A diferença é a escala: não mais a intimidade de uma família ou a elite de uma cidade; agora é a viralidade digital, o público global que consome, amplificando o impacto da transgressão.

Vivemos numa era que estetiza tudo. A dor vira meme, o trauma vira trend, a exploração vira conteúdo. A cultura digital repete a armadilha da prosa de Mário: ao embelezar, ao converter em espetáculo, esconde-se a ferida. Só que agora não é a música da frase literária que mascara; é a velocidade irônica das timelines, a anestesia coletiva do riso.

“A vida é só o instante em que nos doamos.” Sim, mas só há doação verdadeira quando há escolha, quando há maturidade para dizer “sim”. Do contrário, não é doação: é captura, é imposição. E talvez seja esse o fio mais atual do romance: a lembrança de que o amor só é legítimo quando não invade, não apressa, não sequestra o tempo alheio.

Se amar é verbo intransitivo, ele não pede complemento. Não precisa de objeto, não precisa de espetáculo, não precisa de justificativa. O amor se basta. E se basta justamente porque não invade. Amar é deixar ser. Tudo o que rompe esse princípio — seja a família burguesa de 1927, seja a lógica digital de 2025 — não é amor, é comércio, é política, é abuso.

Ler (ou ouvir!) “Amar, verbo intransitivo” hoje é abrir uma janela para um espelho partido. O romance é literatura, mas é também advertência. Mostra-nos como o Brasil já naturalizou a violência contra a infância e como ainda repetimos os mesmos erros, agora amplificados pela luz azul das telas. O caso Felca é apenas atualização dessa velha tragédia: a dificuldade crônica de reconhecer a infância como território inviolável.

E talvez esteja aí a lição poética e filosófica que Mário nos deixou sem saber: amar, para ser verbo intransitivo, não pode ser rito imposto nem piada coletiva. Não pode ser currículo planejado por pais ou algoritmos. Só pode ser sopro, estado, respiração. O amor verdadeiro não educa pela força nem diverte às custas da inocência. O amor verdadeiro, como música, vive apenas no instante em que soa — e jamais deveria roubar do outro a possibilidade de ser criança enquanto é tempo.

“Amar, verbo intransitivo”: sopro que não prende, música que não se interrompe, liberdade que se basta. E, de bônus, (mais) uma produção incrível de nossos estúdios, que você pode aproveitar, também, em nossa Assinatura Ilimitada junto a outros milhares de audiolivros e eBooks!

Créditos:
Texto: Blog Tocalivros
Foto: Hudson Rennan/ELLE Brasil https://www.instagram.com/ellebrasil/
Fontes: Felca/Felipe Bressaninhttps://www.instagram.com/felca0 

Beatriz Iara Schoueri

Designer gráfica que se tornou pesquisadora de UX, além de storyteller de coração e marketeira por paixão (ou acaso). Entre um filme, um mangá e um bom livro, também arrisco umas histórias próprias. Sou muitas em uma — e adoro me reinventar.

Este post tem um comentário

  1. Paulo

    Muito bacana essa análise de: “amar,verbo intransitivo “ que nos leva a pensar sobre o quanto adiantado em seu tempo estava Mario de Andrade ao romancear sobre os costumes da sociedade escancarando abusos do direito à infância que muito bem colocado por Beatriz, de outras formas acontecem ainda hoje. Vale a leitura e a reflexão se queremos ser uma sociedade melhor. Parabéns!

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