O romance-fluxo das mulheres de Luminol, de Clara Piazzi

O romance-fluxo das mulheres de Luminol, de Clara Piazzi

Luminol apresenta-se como um romance ambicioso, com estruturas narrativas diversas e um tom íntimo ao adentrar a mente e o imaginário de mulheres singulares. Nele, Maya perde a mãe, Clara, e passa sua infância morando com a avó e a bisavó. Já adulta e acompanhada pela sua amiga e editora Laura, ela cede sua voz à leitura oral do diário que herda de sua mãe, recuperando memórias esquecidas e sendo transformada pelos relatos oníricos de Clara.

A escrita de Carla Piazzi oscila por diferentes gêneros narrativos, que acompanham os personagens e suas perspectivas. Maya é narradora de uma prosa nostálgica e escolhe retroceder nas memórias de sua mãe como observadora da sua história, em favor da criação de um espaço emocional para um luto guardado durante toda a sua infância. Espaço esse que acaba por coexistir o presente, afetando a vida de todos próximos a ela e fazendo-os desconfiar da sanidade de Maya. O diário que expõe o rico imaginário de Clara retrata um luto também, pela ausência de sua filha e pela sua vida abandonada em prol da experiência de morar com pessoas desconhecidas em uma fazenda remota. À medida que observa aqueles com quem convive, Clara relata fragmentos de uma nova rotina construída aos poucos, nos cuidados com a casa, na montagem de uma biblioteca e na constante lembrança, comum a todos, de que permanecer no presente é abdicar do passado e de uma vida que ainda acontece lá fora, sem eles.

“Agora, ou escrevo ou morro. Preciso sentir o tempo passar, e ver uma pilha de papéis acumulada por mim pode me convencer de que sim, ele passa. Mas pra seguir adiante com isso, devo estabelecer um novo pacto com o meu diário: aquilo que eu imaginava ser a sua essência, ou seja, a intimidade perfumada por lembranças e justificativas, em vez de me nutrir, me manter viva e capaz de pensar com clareza e de acreditar no futuro, vai me esfacelar, vai me atirar na estrada, e eu não tenho pra onde ir. As memórias vão me dizer: Clara, você não pode viver aqui, não pode viver lá, e não pode morrer. Portanto, não escreverei sobre minha filha. Ainda que eu taque fogo nos papéis, a fumaça da escrita se agrupará novamente numa substância cuja dureza não sou capaz de enfrentar. A saudade e a culpa vão me matar, eu sei disso. E ela precisa de mim viva. Maya, meu amor, você ajuda a mamãe a fazer isso?”

Os comentários de Maya acerca do diário de sua mãe trazem a questão do limite dentro da ação de explorar os escritos de sua mãe, entretanto, quando superado esse constrangimento, emergem perspectivas únicas quanto aos objetivos dentro do isolamento de Clara, o motivo pelo afastamento da filha e ainda a sua morte misteriosa. Apesar de presente somente através da perspectiva de Maya, Clara destaca-se pela sua curiosidade literária e uma grande bagagem de conhecimento acadêmico presente em seus escritos, muitas vezes como uma pista ao leitor das suas motivações e de seu estado psicológico durante essa reclusão.

Em uma história com duas personagens tão intimamente ligadas, é surpreendente que haja espaço para mais uma protagonista. Apresentada primeiro como a filha pequena de Laura e ‘uma menininha tão fácil de lidar’, Quindim é quem traz as reflexões finais sobre a história de Maya e Clara. Ela cresce nos arredores do envelhecimento de Maya e, quando finalmente assume o protagonismo da narrativa, se prova corajosa o suficiente para buscar e enxergar no abismo de Maya um espelho de si própria, e também de Clara. Um romance de estreia que se amplifica por não trazer respostas óbvias ao leitor, Luminol espelha seus personagens uns nos outros e nesse processo descobre pontos de encontro impossíveis de acessar sem uma escrita autêntica e experimental como a de Carla Piazzi.


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