Desde os contos sussurrados ao pé da cama até as grandes narrativas que moldam nosso imaginário, há sempre uma sombra que cresce junto ao herói — um “outro” temido, evitado, reduzido a um ato final de violência ou vingança. Mas e se essa sombra tivesse sido primeiro uma criança? E se, antes do riso maléfico, houveram lágrimas, silêncios, ausências? Serena Valentino, autora de contos fantásticos e celebrados em todo o mundo, em sua coleção “Vilões da Disney” publicada no Brasil pela Universo dos Livros, abre frestas nesses silêncios e nos convida a espiar o que há por trás da máscara endurecida desses personagens que ainda nos são queridos. Ao recompor o passado da Rainha Má, de Gancho, de Malévola, de Gaston e até mesmo da Fera — que não é vilão, mas carrega a marca de quem foi ferido — entre tantos outros, a autora se aproxima de uma pergunta antiga e inquietante: a maldade é semente ou é ferida?
Ao revisitarmos a Rainha Má (em “A mais bela de todas”), deixamos de ver uma personagem rasa, soberana, sombria e obcecada por aparência e poder. Valentino sugere que a madrasta de Branca de Neve nasce entre espelhos atravessados de expectativas alheias: a beleza como fardo, o amor como ausência, a corte como arena onde a perda e a rejeição cantam mais alto que qualquer virtude. Não é à toa que, quando adulta, sua obsessão se torna quase uma oração distorcida — como quem tenta controlar o único aspecto da vida que nunca a abandonou: sua própria imagem. Aqui, a vaidade deixa de ser pecado e passa a ser cicatriz.
Em “Mamãe Bruxa: a história da vilã de Rapunzel” a Mãe Gothel talvez seja uma das figuras mais trágicas da coleção. Há paralelos e disparidades com a personagem anterior, já que, neste conto, Valentino desmonta a caricatura da velha cruel e vaidosa e revela uma mulher que experimentou, desde cedo, o desamparo e a luta pela sobrevivência. Sua história nasce entre irmãs que não a acolheram, com a sensação persistente de ser a sombra dentro da própria família. Gothel aprende o mundo pela lente da escassez, agarrando-se ao que pode para não desaparecer — inclusive à magia. Sua busca pela juventude, então, parece menos capricho e mais desespero: um medo profundo de dissolver-se, de deixar de existir para aqueles que nunca a viram plenamente. Assim, sua maldade brota não da crueldade espontânea, mas de um amor distorcido por si mesma, moldado pelo medo e pela solidão. Ela é, ao mesmo tempo, raiz e fruto de sua própria fome.
Em “Malévola – Rainha do Mal”, o arco é ainda mais simbólico. Ela, que surge como fada que almeja bondade, descobre, dia após dia, que a bondade exige aceitação — algo que lhe é negado pelas próprias fadas que deveriam acolhê-la. Cresce, então, à margem, como uma chama que deveria iluminar, mas foi ensinada a se esconder. Quando, finalmente, explode na maldição que conhecemos, não é o gesto de uma criatura cruel, mas o rugido de alguém que foi silenciado até não suportar mais. Se a rosa de Aurora simboliza tempo, então a maldição de Malévola simboliza dor comprimida.
O caso do Capitão Gancho (“Para sempre nunca – a história do Capitão Gancho”) , antagonista de Peter Pan, retoma outra forma de tragédia. Eis que surge não apenas um pirata temido, mas um homem cuja identidade foi corroída por perdas sucessivas. Antes do gancho de metal, havia mãos que buscavam pertencer; antes da obsessão pelo menino que nunca cresce, havia um adulto que foi privado do próprio tempo. Gancho é apresentado como alguém que vive à deriva — não só no mar, mas dentro de si — navegando entre memórias fragmentadas, injustiças sofridas e a eterna sensação de ter sido arrancado de um destino mais digno. A pirataria deixa de ser escolha glamourosa e se torna refúgio torto: um modo de escrever, com violência, aquilo que não pôde escrever com afeto. Sua rivalidade com Peter, nesse sentido, adquire contornos quase existenciais — o confronto entre quem perdeu a inocência cedo demais e quem jamais terá de perdê-la. O pirata não é apenas o antagonista: é o homem que luta contra a própria ruína, agarrando-se ao gancho como quem prende as últimas certezas antes que o mar as arraste para sempre.
E em “A Fera em mim — a história do príncipe da Bela”, temos a Fera, que, de todos, é o mais transparente em sua transformação — encarna a metáfora mais pungente de toda a coleção e talvez por isso seja o mais deslocado. É vilão sem sê-lo, ou é vilão redimido que então se torna príncipe? — fica aqui a minha provocação. Seu corpo monstruoso é reflexo de algo que já o corroía por dentro: a incapacidade de amar e ser amado. Sua figura revela que o monstro nem sempre surge de fora; às vezes, somos nós que o criamos por dentro, camada após camada de medo, orgulho e arrependimento. Valentino parece sussurrar que a verdadeira maldição do príncipe nunca foi a feiura, mas a dureza que o impedia de se enxergar. E, talvez por ter sido a única personagem nascida com tal semente, aqui coube redenção. Mudança.
Reunidos, esses retratos compõem uma reflexão que ultrapassa as paredes do castelo ou as profundezas do mar. Eles tocam numa questão filosófica que perpassa séculos de debate: ninguém nasce pronto, muito menos mau. Assim como as pedras de um rio são moldadas pela correnteza, também os personagens de Valentino são transformados pelas forças sociais, emocionais e simbólicas que os atravessam. Cada vilão é, em essência, um resultado — uma síntese de abandono, desigualdade, expectativa, dor.
A vilania, nesses livros, é quase sempre consequência. E, ao humanizar quem antes era apenas estigma, Valentino nos lembra que compreender é um ato ético — e que, muitas vezes, o mal não nasce no indivíduo, mas na sociedade que esqueceu de acolhê-lo.
Se vilões são forjados, e não fabricados, talvez a pergunta mais urgente não seja “por que eles se tornaram assim?”, mas “quem deixamos se tornar assim?”. Afinal, entre monstros e espelhos, todos nós carregamos um pouco das duas coisas.
Mas se a Fera — marcada por uma semente amarga desde o início — pôde aprender o gesto da delicadeza, talvez isso nos diga algo que ultrapassa a ficção: se aquele que nasceu torto pode se endireitar, quem nasceu bom e se corrompeu também pode ser salvo, resgatado, reconduzido ao que é essencial. A jornada da Fera é o lembrete mais polido que a Disney deixou gravado na memória coletiva — aquele aviso silencioso de que o amor transforma, o olhar refeito cura, e que até o mais sombrio dos destinos pode ser desviado quando alguém decide acreditar. E, se isso é possível no reino encantado, por que não seria no nosso? Em última instância, a história da Fera nos devolve a esperança de que a monstruosidade nunca é ponto final, apenas vírgula antes do renascimento.
Se este mergulho pelas sombras e luzes desses personagens te despertou curiosidade, aproveite. Todas essas histórias — e tantas outras — podem ser ouvidas na Tocalivros, com vozes que ampliam estes mundos com realismo e intensidade. Um convite para continuar essa travessia: de ouvidos atentos e descobrindo o que se esconde nas entrelinhas destes contos que marcam nossas almas. Aproveite tudo em nossa Assinatura Ilimitada!
Designer gráfica que se tornou pesquisadora de UX, além de storyteller de coração e marketeira por paixão (ou acaso). Entre um filme, um mangá e um bom livro, também arrisco umas histórias próprias. Sou muitas em uma — e adoro me reinventar.