“Normalmente, começo a escrever sem saber o que estou fazendo. Só mais tarde é que tento perceber. Afinal, os gêneros literários me parecem limitativos.”
“A vizinhança pode ser definida e sintetizada desta forma. Dois homens falam entre si, de janela para janela.”
(Gonçalo M. Tavares)
Me encontro muito feliz tendo a oportunidade de escrever um texto sobre este livro que posso afirmar ter marcado tanto minha carreira literária quanto meu corpo, tornando-se parte da minha coleção de tatuagens. Este é um romance tão singular na literatura Brasileira e, ao mesmo tempo, significativo e representativo dessa nossa sociedade carnavalesca. Com “carnavalesco”, retomo o costume festivo medieval do carnaval, o qual transposto para a literatura aborda uma linhagem de registro cômico e satírico junto a uma mistura de gêneros, colocando uma perspectiva muito mais popular àquela literatura dita “culta”, tirado da obra do teórico Bakhtin¹. É possível afirmar que a carnavalização é uma criação de um mundo paralelo onde valores e estruturas são subvertidos.
Ao adentrar uma nova obra literária, seja como forma de entretenimento ou estudo, busco sempre tentar relacioná-la a de outros autores, criando assim uma linhagem quase familiar com essas obras. Quando termino a leitura, escolho em minha estante um lugar entre os livros de outros autores onde se encaixa o novo membro deste bairro literário. Assim construo uma vizinhança em que os livros conversam entre si de alguma forma, seja por conta de suas personagens, do tema que centralizam ou mesmo a época que foram escritos. Importante ressaltar que suas moradias são alugadas, a qualquer momento Vidas Secas pode ir morar na casa onde está O Ateneu, e assim por diante, criando outra vizinhança completamente nova. Essa maneira de pensar minha estante como uma vizinhança em que as obras e autores conversam entre si numa relação de afastamento ou de proximidade, confesso que tomei emprestado do literato angolano-português Gonçalo M. Tavares e de sua série literária O Bairro. Nela, Tavares cria uma vizinhança na qual diversos autores e filósofos têm suas casas e suas andanças, conversando entre si, criando novas interações:
“São personagens que, embora guardando um pouco o espírito do nome que levam – quer seja pelo tema, pela lógica de pensamento, escrita, etc. – são ficcionais, autônomas, personagens que fazem o seu caminho.” (TAVARES, Gonçalo M.)
Afinal, onde decidi alugar um canto para Policarpo? Nesse momento, no bairro mais prestigiado da minha estante, moram nesta ordem: O Cortiço, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Memórias de Um Sargento de Milícias, Triste Fim de Policarpo Quaresma e Macunaíma. Ao meu ver, a ligação entre todas as obras se mostra numa intenção de retratar a sociedade brasileira se utilizando de um tom carnavalesco, como forma de ironia. A forma como Quincas Borba é descrito nas obras de Machado, ou a construção da personagem Leonardo em Memórias de Um Sargento de Milícias são grandes exemplos dessa carnavalização na literatura.
A fim de não deixar dúvidas, podemos usar algumas passagens do romance que exemplificam a tal da carnavalização que tenho citado tantas vezes. No capítulo IV da Primeira Parte, o protagonista envia um requerimento ao Senado pedindo a adoção da língua Tupi como língua oficial do País:
“Policarpo Quaresma, cidadão brasileiro, funcionário público, certo de que a língua portuguesa é emprestada ao Brasil; (…) usando do direito que lhe confere a Constituição, vem pedir que o Congresso Nacional decrete o tupi-guarani como língua oficial e nacional do povo brasileiro.” (BARRETO, Lima.)
Assim que o requerimento é lido, acontece uma algazarra geral, todos riem daquele absurdo:
“…os jornalistas, porém, que estavam próximo à Mesa, ao ouvi-lo, prorromperam em gargalhadas, certamente inconvenientes à majestade do lugar. O riso é contagioso. O secretário, no meio da leitura, ria-se, discretamente; pelo fim, já ria-se o presidente, ria-se o oficial da ata, ria-se o contínuo — toda a Mesa e aquela população que a cerca riram-se da petição, largamente, querendo sempre conter o riso, havendo em alguns tão franca alegria que as lágrimas vieram.” (BARRETO, Lima.)
Claro que essa passagem é uma crítica ácida e irônica que revela a futilidade e o vazio das discussões políticas do País, e assim podemos perceber as características centrais referentes a carnavalização. Um registro completamente cômico e absurdo que mistura gêneros diferentes, como a presença de um requerimento no meio do romance. Esse trecho tem o dom de mostrar como o romance opera num mundo fictício onde é possível um homem de prestígio pedir algo tão absurdo quanto tal requerimento.
Policarpo Quaresma, protagonista do romance, é uma personagem extremamente complexa de se tratar. Ao mesmo tempo em que coloca em pauta um assunto muito importante quanto o nacionalismo, ele o leva ao extremo subvertendo completamente sua função. Vale ressaltar que, na época, assim como hoje, tudo o que vinha do estrangeiro era considerado de maior estima que o nacional e Lima Barreto era um crítico ferrenho a isso. Policarpo, portanto, incorpora essa crítica se recusando a utilizar qualquer coisa que tenha origem no estrangeiro. Porém, o problema se dá conforme a personagem se aprofunda em tudo que pensa ser genuinamente brasileiro e descobre que, na realidade, suas origens são europeias. Portanto, passa a recusar tudo o que é de costume do povo, incluindo instrumentos musicais, cumprimentos, e até a língua portuguesa, o que faz nosso herói enlouquecer de tanto nacionalismo e causa-lhe a internação no hospício da Praia das Saudades.
A crítica incorporada na personagem, é, portanto, ambivalente, pois ao mesmo tempo que ataca a alta sociedade que consome e supervaloriza o estrangeiro e deprecia a cultura brasileira, ataca também quem utiliza do sentimento nacionalista de forma exagerada. Nesse sentido, Lima Barreto se assemelha muito aos modernistas da Semana de Arte Moderna de 22, pois um dos temas centrais dessa revolução artística está na incorporação do estrangeiro pela cultura brasileira e sua transformação em algo genuinamente nosso. Afinal, o que é Macunaíma se não a incorporação e transformação da matéria estrangeira numa epopeia brasileira?
Interessante mencionar como Policarpo, em sua trajetória nacionalista, segue Floriano Peixoto cegamente – é ele a figura central do Brasileiro – a ponto de defendê-lo durante a revolta da armada, lutando ao seu lado. Porém, do mesmo modo que Lima constrói e desconstrói o Nacionalismo do protagonista, Policarpo passa a perceber os problemas relacionados ao regente e se opõe a ele, o que gera sua prisão e execução ao final do romance. Percebe-se, nesse momento, uma crítica ferrenha ao uso do nacionalismo como estratégia política para manipulação do povo, e como isso pode ser prejudicial para aqueles que aderem a essa visão, como Policarpo. Um olhar minimamente atento observa a similaridade do momento histórico da obra com o Brasil contemporâneo: um político utilizando do sentimento nacionalista para inflamar a população a alguma ação que lhe engrandeça. Ao final, aqueles que o seguiram cegamente é que receberam a punição, como Policarpo.