Além do arco-íris: o caminho iniciático em O Mágico de Oz

Além do arco-íris: o caminho iniciático em O Mágico de Oz

Há livros que se disfarçam de contos para crianças apenas para que o adulto neles encontre o espelho de si. O Mágico de Oz, publicado em 1900 pelo norte-americano L. Frank Baum (1856-1919), é um desses espelhos encantados que devolvem ao leitor não apenas uma história de aventura, mas uma alegoria da consciência humana em busca de si mesma. Sob o véu de um tornado e um par de sapatos — note-se: prateados —, o romance encena o rito da alma que precisa perder-se para compreender o poder que já possuía.

Ao longo do último século, O Mágico de Oz inspirou inúmeras adaptações — algumas amplamente ovacionadas, outras alvo de críticas severas. Nesse percurso, parece que a essência original da obra, seu encanto de fábula, em certa medida se esvaiu, cedendo lugar ao espetáculo comercial e midiático. Até mesmo um prequel, intitulado Wicked, alcançou voo primeiro nos palcos da Broadway e, agora, conquistou o mundo como um grande evento cinematográfico, daqueles hollywoodianos de maior pompa e requinte, reunindo no elenco Ariana Grande e Cynthia Erivo, sob a direção de Jon M. Chu. Chu, vale comentar, manifestou ter sonhado com a obra desde a infância e curiosamente percorreu a própria estrada de tijolos amarelos — enfrentando desafios e peculiaridades — até materializar o projeto e atingir o reconhecimento máximo. Oscar nele! Nesse sentido, o diretor concretizou seu sonho ao trazer de volta o mágico, os feiticeiros e os moradores de Oz sob nova luz e maior profundidade, mesmo que Dorothy não participe diretamente da maior parte da jornada. O foco são as feiticeiras; a bruxa e aquela que aspira ser fada. E tudo bem. Essa estrada de tijolos amarela abre espaço para que eu pegue meu desvio e retorne à trilha original envisionada por Baum. Isso é arte, meus amigos.

Retornemos, então, a Kansas e às primeiras linhas de uma obra infantil que se abre com caos e destruição — em sua superfície. O tornado que assusta Dorothy e a arranca da casa dos tios não é apenas uma catástrofe; é um chamado. A menininha é arrebatada de um mundo cinzento, árido e literal (o domínio do racional) para um espaço de cor e sonho, o território simbólico do inconsciente. Ela não pede para ir. Ela se vê nele. E assim, Baum, sem recorrer à moralidade explícita das fábulas clássicas, sugere que o crescimento só é possível pela desordem: a tempestade destrói a ilusão de estabilidade e inaugura a jornada da individuação, o caminho do herói que atravessa o caos para reencontrar o próprio centro. Quando a casa é lançada ao ar, Dorothy não é apenas removida do chão — é despida de toda certeza, e a travessia se apresenta como uma metáfora do despertar.

É aqui que podemos evocar um conceito que estava em voga à época da publicação e que certamente influenciou Baum: a alquimia. Duvidam de mim? Vamos lá: tradicionalmente associada à transmutação de metais, a alquimia também foi uma poderosa metáfora da transformação interior. Assim como o alquimista precisa do fogo para separar o puro do impuro, Dorothy é lançada às alturas para que o mundo cinzento do Kansas se desfaça e o invisível se revele em cor. A experiência bruta, marcada pelo medo e pela confusão, torna-se o laboratório da alma, e a menina — como matéria-prima do alquimista — é chamada a se transformar em algo mais elevado, simbólico e iluminado. Nesse sentido, a tempestade não destrói apenas a casa ou o chão; ela aciona o fogo da transmutação interior, preparando Dorothy para o trabalho mais profundo da consciência. Fogo é paixão. É momento. Fogo que se atiça e dança com vento, outro elemento, mas que também é transformação e, em muitas culturas, renascimento. Temos nosso prelúdio.

E com nosso prelúdio, chegamos a Oz. Sem aviso, sem riso. Nos descobrimos lá assim como Dorothy, e nos questionamos — existencialistas que somos sem ser — como, quando, onde e por quê. Nos encontramos num país agridoce. Mais uma vez, somos confrontados com princípios e nós mesmos. Mais do que cenário de fantasia, vemos diante de nós o mapa do inconsciente. Cada território colorido representa uma esfera psíquica, um elemento da natureza e um estágio do processo de individuação. É tudo lindo, até que deixa de ser. A Estrada de Tijolos Amarelos, descrita como “bela e bem conservada, com tijolos amarelos que brilhavam ao sol como ouro”, é o fio de ouro da consciência que tenta manter-se coesa enquanto atravessa o sonho. O amarelo, cor solar, simboliza a clareza e a iluminação; mas o caminho não é linear. As curvas e os enganos representam a descida ao labirinto do eu, onde razão, emoção e coragem precisam ser resgatadas das sombras. Em termos junguianos, a estrada conduz o ego a confrontar suas figuras interiores — os arquétipos que Dorothy encontra projetados em seus companheiros.

Nesse percurso surgem três figuras arquetípicas, e por nós muito queridas: o Espantalho, o Homem de Lata e o Leão Covarde. Dorothy encontra primeiro o Espantalho em meio a um campo desolado, preso a uma cruz de madeira, gritando por ajuda. Suspenso em seu vazio, ele declara: “Se eu ao menos tivesse um cérebro”. Contudo, é ele quem encontra soluções criativas para cada obstáculo, encarnando o intelecto intuitivo que nasce do coração. Mais adiante, a menina descobre o Homem de Lata, imóvel e enferrujado no meio da floresta, incapaz de se mover. Ao ouvir seu lamento — “Tomarei o coração, pois o cérebro não traz felicidade, e a felicidade é a melhor coisa do mundo” — Dorothy percebe que sua ferrugem simboliza a estagnação emocional e a mecanização do ser, e a ajuda a se libertar. Por fim, a jornada a leva a encontrar o Leão Covarde na floresta de grandes árvores, rugindo de medo diante de sombras imaginárias. Ele confessa: “Serei realmente muito infeliz se você não me der a coragem que faz alguém esquecer que tem medo.” A tríade é, em essência, uma só alma fragmentada — pensamento, emoção e vontade em busca de harmonia. Jung observaria que Dorothy caminha acompanhada de suas próprias funções psíquicas, projetadas em figuras externas para que possa reconhecê-las e reintegrá-las.

A convivência entre eles e Dorothy representa a própria alquimia da psique: o fogo da experiência vai transmutando o chumbo da ignorância em ouro interior. O que cada um busca no exterior é apenas reflexo do que já existe dentro de si — um princípio profundamente junguiano de projeção e reconhecimento do inconsciente. Ah, e que aceitar a vida de forma diferente é justamente o que lhe dá maior sentido.

Sentido que se dá e que se perde, mudo dele novamente e tão levianamente. Antes de retornar a Oz, vale um breve desvio: decidi falar sobre a Oz de Baum justamente por consequência da Oz de Gregory Maguire agora reinterpretada por Chu. Se nossas bruxas têm história, nosso espantalho também tem. Antes um príncipe vaidoso e interesse amoroso disputado por Glinda e Elphaba, Fiyero enfrenta transformação simbólica e trágica: após ser enfeitiçado por Elphaba e sofrer os efeitos de feitiços e golpes políticos, seu corpo é preservado de forma mágica, mas despojado de humanidade, assumindo a forma do Espantalho que aparece em O Mágico de Oz de Baum. A conexão é uma forma de Maguire reinterpretar os personagens clássicos, dando-lhes histórias e motivações mais complexas, muitas vezes com camadas políticas, sociais e emocionais.

Pronto. Fiz meu parênteses e retorno à rota principal. Retornemos à Oz. Falemos, agora, de seu mágico. O Mágico simboliza a ilusão do poder exterior — a sombra coletiva da autoridade humana. Quando Dorothy finalmente o encontra, ele surge em formas múltiplas e enganosas: ora como uma cabeça gigante, ora como uma bela mulher, ora como uma fera, ora como uma bola de fogo. Cada forma é uma máscara do medo coletivo. Quando o véu cai e se descobre que “sou apenas um homem comum”, a verdade se impõe: toda autoridade é um espelho, e o milagre não vem de fora. A revelação do impostor é o momento em que o discípulo supera o mestre, liberando-se da dependência e reconhecendo que a centelha divina habita o próprio peito.

Baum foi leitor e simpatizante de ideias espiritualistas e teosóficas, e isso transparece na obra. Cada encontro de Dorothy é uma prova de purificação: o contato com as bruxas simboliza forças elementais, a descida às florestas, o inconsciente instintivo, e a travessia das planícies, o domínio do pensamento. A menina, guiada por sua pureza e curiosidade, cumpre o papel da matéria que busca a luz. Na linguagem da alquimia, ela é o vas hermeticum, o recipiente que contém a transmutação, e Oz é o forno onde se realiza a obra.

Os sapatos de prata se perderam em Hollywood e ganharam tom rubi. Os sapatos de prata, talismã que a acompanha desde o início, representam o poder intuitivo e silencioso. Diferente do ouro da estrada, que brilha para fora, a prata não tem luz própria e reflete a luz do espírito. Dorothy só aprende a ativar esse poder no final da jornada, quando bate os calcanhares três vezes dizendo: “Levem-me para casa, Tia Em!” O gesto é um rito triplo: corpo, mente e espírito reunidos em um só ato. O lar, aqui, não é geográfico, mas interior — o reencontro com o centro após o exílio do sonho.

Ao despertar, Dorothy se encontra no mesmo Kansas cinzento, mas a paisagem já não é a mesma. Como nas iniciações antigas, a protagonista retorna ao mundo profano, portando a sabedoria conquistada no invisível. “Não há lugar como o lar” é, portanto, menos nostalgia e mais transcendência. O livro, sob a aparente simplicidade infantil, é uma parábola da alma que desce às profundezas do imaginário para reencontrar a si mesma no cotidiano.

No fim, O Mágico de Oz é menos sobre um país encantado e mais sobre a redescoberta do próprio encanto. Dorothy atravessa o tornado, percorre o ouro da estrada, reconhece a sombra da autoridade, aprende a unir seus opostos e retorna com o elixir — a consciência de que a verdadeira magia sempre esteve dentro dela. O conto sugere que a magia não é um poder que se adquire, mas uma percepção que se desperta. Dorothy não aprende feitiços; aprende a ver. E essa visão é o prêmio que aguarda todo aquele que ousa atravessar o tornado e caminhar pela estrada amarela até o coração de si mesmo.

E, mais uma vez, deixo aqui o convite para você mergulhar na obra original de L. Frank Baum, agora tão majestosamente adaptada em audiolivro pelos nossos estúdios. Com produção binaural de ponta, nossa equipe oferece efeitos sonoros dignos de Hollywood, capazes de fazê-lo esquecer do mundo ao redor e transportá-lo para Oz em um piscar de olhos. Cuidado com a Bruxa Má d’Oeste! Ou, melhor, com o Mágico.

Aproveite a estreia de Wicked: For Good e o clima de hype para revisitar — ou descobrir — o conto que inspirou e definiu esta terra distante e esmeralda, conquistando corações e premiações ao redor do mundo. Ah, e lembre-se: este e outros clássicos estão disponíveis em nossa Assinatura Ilimitada.

Beatriz Iara Schoueri

Designer gráfica que se tornou pesquisadora de UX, além de storyteller de coração e marketeira por paixão (ou acaso). Entre um filme, um mangá e um bom livro, também arrisco umas histórias próprias. Sou muitas em uma — e adoro me reinventar.

Deixe um comentário