Há livros que nos divertem, que nos fazem debulhar em lágrimas ou que nos conduzem — dóceis, inquietos e até por vezes resistentes — por suas páginas. Há também os que nos acariciam como uma brisa suave, e os que, em contraste, nos atravessam como tempestades. “O Morro dos Ventos Uivantes” (1847), de Emily Brontë, pertence, para mim que lhes escrevo, a essa última espécie, rara. Não é uma história para ser apenas lida, mas sentida na pele, nos ossos, n’alma. É o tipo de romance que nos deixa inquietos, febris, como se o vento de suas charnecas ainda soprasse em nosso rosto muito depois da última página. Confesso: o li e reli incontáveis vezes, ainda sem ter-me dado por satisfeita, cada qual sentindo uma parte da história de forma diferente e desacreditando a trama que tão bem já conheço, conhecia.
Permitam-me, então, um breve resumo dessa obra que tanto me significa, antes de exaltar sua contemporaneidade e relevância para a mulher e sociedade atuais, e o porquê de tê-la eleito como pauta deste escrito. Cuidado com spoilers.
Nas charnecas batidas pelo vento, o “Morro dos Ventos Uivantes” não é apenas cenário; ele respira, observa, sente. Cada colina ecoa risos e gritos, cada vento traz memórias que não se calam. “Não consigo olhar para esta terra sem lembrar dela; os ventos que uivam através das charnecas soam como sua própria voz.” Ali, o humano e o natural se entrelaçam, e o morro parece preparar o palco para encontros que desafiam a própria vida. É nesse espaço que Catherine e Heathcliff surgem, inseparáveis da paisagem que os molda: ela, selvagem e ardente; ele, intenso e marcado pela dor, órfão de pele escura e cabelos negros, sempre percebido como estranho, chamado de “cigano” ou “bastardo”.
Desde cedo, Catherine percebe nele mais do que um intruso: vê nele uma extensão de si. Assim, antes de qualquer outra palavra, seu amor é definido: “Se todo o resto perecesse e ele permanecesse, eu continuaria a existir; e se todo o resto permanecesse e ele fosse aniquilado, o universo se tornaria um estranho para mim.”
Não são dois corpos, mas uma única força dividida, que os exalta e corrói. Crescem juntos, brincando, desafiando o mundo, unidos por um amor que queima mais forte que qualquer convenção. “Ele é mais eu do que eu sou. O que quer que nossas almas sejam feitas, a dele e a minha são iguais.”
Eis que o mundo, a sociedade, exige escolhas: Catherine, pressionada pelo conforto e pelo status, casa-se com Edgar. Sua confissão revela a tensão entre desejo e obrigação, sua falta de voz frente à sociedade da época: “Seria degradante para mim casar com Heathcliff agora; e, portanto, nunca vou dizer que o amo… embora ele seja mais eu do que eu mesma.” Essa decisão marca os dois para sempre, e o vento parece transportar seu lamento pelas colinas.
Ferido pelo abandono, Heathcliff desaparece e retorna transformado, rico, endurecido. Seu amor pela Catherine, agora morta, se converte em vingança e faz com que o anti-herói — um dos mais bem construídos da Literatura — manipule heranças, subjugue descendentes, oprima vivos. Ainda assim, arde nele a chama que não se apaga: “Não posso viver sem minha vida! Não posso viver sem minha alma!” Sua violência é máscara para a dor que atravessa sua existência.
Narrado pelas vozes de Nelly Dean (governanta) e Lockwood (inquilino de Thrushcross Grange), o leitor é convidado a conhecer um ponto de vista ora mais subjetivo e julgador, extremamente emocional, ora distante e curioso. Esse jogo de narradores contribui para a sensação de mistério, ambiguidade moral e intensidade emocional do romance, que se revela como ecos e fragmentos. Nada é absoluto; cada lembrança é vento que carrega verdades e ilusões. Heathcliff é vítima e algoz; Catherine, heroína e vilã. Não há pureza no amor deles, apenas intensidade: “Se ele amasse com todo o poder de seu ser fraco, não poderia amar tanto em oitenta anos quanto eu poderia em um dia.”
A morte não encerra a história. Catherine persiste como fantasma, voz que uiva, presença que se mistura ao vento e à terra. Heathcliff, por fim, busca apenas reencontro. Quando morre, parece fundir-se às colinas e ao sopro que nunca se cala: “Vi Heathcliff e Catherine vagando juntos pelas charnecas, como sombras, como se a terra tivesse cedido a eles o repouso que a vida lhes negara.”
“O Morro dos Ventos Uivantes” é mais que uma história; é experiência. É vento que toca, que atravessa, que grita e acaricia. Cada página pulsa como se a terra respirasse com seus personagens, e cada sussurro, cada uivo, nos lembra que certos amores não cabem em tempo, espaço ou forma humana — eles apenas existem, como tempestade e brisa, eternos.
Emily Brontë fez de “O Morro dos Ventos Uivantes” um monumento ao poder do sublime: essa experiência que, como as tempestades das charnecas, é ao mesmo tempo grandiosa e aterradora, bela e cruel. O livro não é para ser apenas lido, mas sentido; o vento atravessa suas páginas, a terra ressoa sob os pés, e as vozes de Catherine e Heathcliff continuam a nos chamar, lembrando que certas paixões não pertencem ao tempo, mas à eternidade.
E, no entanto, se deixarmos que esse eco nos toque, talvez percebamos o contraste com outra autora que, décadas antes, também desenhou uma heroína feroz: Jane Austen. Em “Orgulho e Preconceito” (1813), Elizabeth Bennet encontra sua plenitude não ao sacrificar-se às convenções, mas ao reafirmar sua independência e, assim, conquistar respeito e amor. Já Catherine Earnshaw, trinta anos depois, não encontra libertação, mas prisão. Seu amor por Heathcliff é abafado pelas expectativas sociais, e o resultado é trágico: a redenção só acontece na morte. Essa diferença não é apenas literária; é filosófica. Brontë nos obriga a encarar a pergunta que Austen sugeriu anos antes: qual o preço de nossas escolhas? O que acontece quando, em vez de sustentar com firmeza o amor por nós mesmos, preferimos a aprovação do mundo? Emily responde com violência: a vida se perde, e a felicidade só chega como fantasma.
Esse contraste lança o romance para além da sua época, trazendo-nos hoje a provocação existencialista: viver bem é aceitar as consequências de nossas escolhas. Uma vida plena não é feita de amor perfeito ou destino inevitável, mas de responsabilidade pelas decisões tomadas, de reconciliação com os caminhos que escolhemos. Cathy e Heathcliff nos lembram, com fulgor, que o arrependimento é o maior dos abismos – e que ninguém escapa dele sem deixar algo de si para trás.
Se Austen nos deu os primeiros enemies to lovers da literatura, penso que posso dizer que Brontë nos deu algo ainda mais radical — os primeiros frenemies intensos, almas que se chocam como tempestades. A diferença é clara: Elizabeth e Darcy se constroem através do conflito, amadurecendo e se completando; já Catherine e Heathcliff se sabotam, num ciclo repetitivo de amor e destruição. É uma relação tóxica, muito antes do termo sequer existir. Começamos torcendo por eles, encantados pela química e pelo vínculo quase sobrenatural; mas, à medida que a narrativa avança, desejamos que se separem, que amadureçam, que encontrem paz longe um do outro. Porém Brontë, com um olhar naturalista, não nos dá essa satisfação. Eles só percebem o valor um do outro quando já é tarde demais. E talvez aí esteja sua provocação mais profunda: mostrar que o ser humano, tantas vezes, só aprende diante da perda irreparável.
O livro, como o vento que nunca cessa, também se reinventa a cada geração por meio do cinema. Desde 1939, passando por 1992 e 2011, até a nova adaptação anunciada para 2026, o fascínio por O Morro dos Ventos Uivantes não diminuiu. A versão de 2011 foi corajosa em retratar Heathcliff mais próximo de sua descrição original, graças ao ator britânico James Howson, e enfrentando as marcas de sua alteridade. Já agora, a escolha de Jacob Elordi para o papel reacende os debates: até que ponto as adaptações devem ser fiéis à origem literária? E até que ponto podem — ou devem — se reinventar, provocar? A presença de Margot Robbie, loira e mais velha que a personagem de Catherine (para não dizer “o dobro da idade”), também levanta interrogações sobre as intenções da premiada diretora Emerald Fennell; se busca deliberadamente tensionar expectativas. Fato é que o trailer lançado no começo deste Setembro não acalmou os ânimos: sensualidade estilizada e palpável, estética polida em sua rusticidade, intensidade quase ensaiada mesmo que visceral. Mas talvez seja exatamente aí que reside a força da obra original, sempre em contraste: Emily Brontë nos deu um livro imprevisível como o vento e cada adaptação parece tentar aprisionar essa tempestade em imagens. É impossível. O livro é vivo demais, indomável demais para caber em moldes.
Assim, “O Morro dos Ventos Uivantes” permanece como um convite e um desafio. Um convite a sentir — e não apenas ler — o amor, a vingança, a perda. E o desafio de aceitar que, como Catherine e Heathcliff, cada um de nós é forçado a escolher — e que a grandeza ou a ruína da vida não está no vento que nos envolve, mas na maneira como aprendemos a dançar ou resistir a ele.
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Preciso dizer: nossa equipe de produção sabe o que faz. São artistas, né? Não à toa, dizemos por aqui que não basta narrar, mas tem-se que saber contar boas histórias. E, ah!, como esse time sabe fazê-lo!
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Até a próxima!
Designer gráfica que se tornou pesquisadora de UX, além de storyteller de coração e marketeira por paixão (ou acaso). Entre um filme, um mangá e um bom livro, também arrisco umas histórias próprias. Sou muitas em uma — e adoro me reinventar.