Clássicos que deveríamos ter lido, se tivessem explicado.

 Poderíamos começar essa coluna com uma citação de um dos maiores escritores do nosso tempo, Ítalo Calvino (um clássico), para justificar por que lemos o terror dos estudantes: os clássicos da literatura. Sendo piegas, sou obrigado a dizer que: Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer. Quem o disse foi nosso amigo acima. Vale a pena uma pausa para a reflexão.

Palavras complicadas como weltliteratur são usadas para dizer a mesma coisa. Um livro clássico não se resume somente àqueles que nossos professores nos obrigavam a ler para fazer uma prova. Quando somos obrigados a algo que mal nos é explicado, criamos uma certa resistência, como aquele gosto de analgésico em gotas. Mas de quando em quando, um ser iluminado pega o espírito da leitura e traduz com maestria o que o autor quis dizer.

Não nos damos conta, mas muitas novelas, filmes e séries têm na literatura clássica um modelo, uma inspiração. Pode não parecer, mas, por exemplo, a novela da Rede Globo O Cravo e a Rosa (2000) têm, entre muitas outras, a influência de William Shakespeare e sua A Megera Domada. Hollywood também é perita neste tipo de hipertexto, por exemplo, com O Diário de Bridget Jones, inspirado em Orgulho e Preconceito, de Jane Austen. Isso ainda sem mencionar os clássicos brasileiros. Então, para também cantar a minha terra, cito Capitu, com o inigualável Michel Melamed no papel de Dom Casmurro.

Portanto, a reflexão que devemos fazer é se os clássicos são utilizados por modismo ou não. Como professor de literatura, costumo ensinar aos meus alunos que devemos entender as razões de ler os clássicos. Então, vamos a alguns dos motivos. Lembrando sempre que ao explicar o motivo da leitura, podemos sempre angariar a boa vontade do leitor.

Divirta-se, inspire-se, filosofe, viaje no tempo e no espaço sem sair do próprio lugar. O livro é um universo de possibilidades para quem procura dar asas a sua própria imaginação; é dispor da própria liberdade de ver o que é um universo exclusivo pois, por mais descrições que um autor possa dar, aquele universo é único, pois só você o está imaginando daquele jeito.

Há quem não consiga chegar nesse nível de abstração, há quem ainda tenha resistência, há quem tenha preguiça. São inúmeras as desculpas para não ter um livro à mão. Para isso, como vimos anteriormente, há o audiolivro. E mais, já de antemão posso indicar um clássico recém produzido pela Tocalivros: Macunaíma.macunaima-jefferson-brito-101316

Macunaíma é um romance de 1928, foi escrito por Mario de Andrade em uma época em que a literatura mais sisuda estava sendo deixada de lado para aproveitarmos o que o nosso povo tem de melhor, que é o próprio povo. Macunaíma é um índio “negro como a noite”, preguiçoso e sem caráter algum.

A saga de Macunaíma – Imperador do Mato – começa quando ele perde sua muiraquitã, um amuleto de pedra que havia ganhado de Ci, a Mãe do Mato. Acompanhado de seus irmãos Maanape e Jiguê, o herói viaja para o Sul em busca do amuleto, que estava em poder do fazendeiro peruano Venceslau Pietro Pietra. Encantado com a “civilização moderna”, Macunaíma, de certa forma, se vê dividido entre seu reino e as maravilhas de “São Paulo, a maior cidade do universo”, como sabiamente relembra a própria curadoria da Tocalivros.

O livro é repleto de troças e sátiras. Não darei spoiler, recomendarei que ouçam a narração – que chamarei de interpretação, para que justiça seja feita –  deliciosa desta obra pelo grande Jefferson Brito. Quando se fala em capturar o espírito da obra, se fala em uma narração primorosa como a dele.

É tão raro e precioso encontrar uma qualidade narrativa e interpretativa que nos permite imergir no universo da obra. A interpretação de Jefferson Brito pega os mínimos maneirismos do personagem e coloca em evidência o ineditismo do modernismo. Ali, no áudio, é difícil lembrar que o livro fora escrito no início do século passado, pois sempre pensamos nele como uma terra de autores sisudos e de escrita indecifrável.

A Tocalivros é uma empresa que prima pela curadoria dos clássicos, tanto os modernos quanto os antigos, além de ter uma equipe de produção ímpar e contar com um equipamento de última geração. Por fim, diante de uma alta qualidade para um alto conteúdo, vale a pena largar a preguiça, colocar os fones de ouvido, pegar um refresco e deixar a imaginação fluir em um maravilhoso deleite literário.

Mario Marcio Felix é carioca, formado em Letras Português/Latim e suas Literaturas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, mestrando em Literatura Comparada. Atualmente trabalha com ensino médio, superior, pré-vestibulares e produção de podcast. Membro do Sphera Geek e colunista do mesmo blog.