1808: Um livro/áudiolivro à altura das desventuras

Nos idos de 2007, ainda estudante de graduação e apaixonado por história, fui à Bienal do Livro do Rio de Janeiro acompanhar as novidades literárias como todo aluno de letras. Até hoje me intriga e me seduz o fato da literatura e da história andar de mãos dadas como irmãs quase gêmeas. Havia certo burburinho, pois o grande repórter e editor Laurentino Gomes lançaria naquele evento o primeiro de uma trilogia sobre a família real brasileira. Corri para a fila e adquiri meu 1808 – Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil.

Pelo título percebi que não era mais um manual de história que, como muitos no mercado, visa se ater aos fatos mais comuns e que aprendemos na escola desde o ensino fundamental. O que eu não imaginava é que devoraria o livro naquele mesmo dia. Não exagero em afirmar que a leitura seria tão fluida e divertida. Jornalistas da safra de Laurentino Gomes são raros. Não tão raro a obra ter ganhado o Prêmio Jabuti de Literatura, o mais importante prêmio da área das letras.

Pena que em 2007 não havia uma empresa que tratasse um audiolivro com tanta qualidade quanto a Tocalivros, pois minha experiência seria tão boa, ou até melhor, quanto a que tive em revisitá-lo em áudio. Ao iniciar a leitura, imaginamos as desventuras de D. João VI fugindo das tropas napoleônicas em uma Europa devastada pela guerra, chegando com sua família –e tudo o que ele conseguiu trazer nos navios- em uma cidade suja e infestada de ratos. Laurentino nos conta em detalhes tragicômicos todas estas, com riqueza de detalhes.

Agora imagine essa experiência narrada, mas não só narrada, ambientada. A opção pelo narrador Daniel Vidal foi interessante, pois sua voz impostada dá um ar de realeza à narração, combinada com a curadoria musical. Confesso ter ficado dividido entre a narração e as músicas.

A equipe da Tocalivros, a que pude identifica com gratidão, não se ateve somente aos clássicos como Overture 1812 de Tchaikovsky e suas salvas de canhão, mas uma pesquisa refinada das melhores obras do Cancioneiro Ibérico, batuques africanos e suas cantigas e também o célebre Lundu, considerado o primeiro ritmo afro-brasileiro. Alguns musicólogos afirmam que o Lundu, combinado com o Maxixe, dera origem ao nosso samba. Porém, ainda é polêmico afirmar isto.

Aos cinéfilos de plantão, que gostam das salas 3D maximizadas com áudio surround, afirmo que estarão por demais satisfeitos com este audiolivro. Aos amantes dos bastidores, esta obra é o que procuram. Aos amantes do livro, bem, estamos muito bem. O audiolivro é a cultura acessível e em movimento àqueles que, como eu, prezam por um bom livro , mas estão impossibilitados de manuseá-lo. Por fim, aos que querem um momento de cultura combinado ao lazer, coloque os fones de ouvido e se acomode para uma experiência imersiva.

 

 

Mario Marcio Felix é carioca, formado em Letras Português/Latim e suas Literaturas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, mestrando em Literatura Comparada. Atualmente trabalha com ensino médio, superior, pré-vestibulares e produção de podcast. Membro do Sphera Geek e colunista do mesmo blog.

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